Segurança · 30/09/2026

Bombeiros e eventos: a Lei Kiss, as notas técnicas e o caminho até o aval

Quem vai aprovar o seu evento? Entenda o que diz a Lei 13.425, como funcionam as notas técnicas do Corpo de Bombeiros (com o Rio de Janeiro como exemplo) e o que dá para preparar antes de bater na porta.

Muita produção cultural passa por esta situação. O evento está marcado, a divulgação já começou, os artistas estão confirmados e só então alguém pergunta: “e os Bombeiros, já viram isso?”. A resposta pode ser tranquila ou pode ser o começo de uma corrida contra o relógio.

Vistoria e atendimento em evento: o planejamento começa antes da abertura dos portões.
Vistoria e atendimento em evento: o planejamento começa antes da abertura dos portões.
Aviso. Este é um texto de orientação, e não parecer técnico. Cada estado tem seu Corpo de Bombeiros e suas normas, e elas são atualizadas. Os números abaixo vêm de documentos publicados pelo CBMERJ, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, usado aqui como exemplo. No seu estado, as regras podem ser outras. Confirme a edição vigente com a corporação local e conte com um responsável técnico habilitado.

Primeiro, a lei federal: a Lei Kiss

Depois da tragédia de Santa Maria, o Congresso aprovou a Lei 13.425, de 30 de março de 2017. Ela não é um manual técnico, e sim uma lei de diretrizes gerais sobre prevenção de incêndio e desastres em locais de grande reunião de público. As ideias principais, conferidas no texto publicado pelo Planalto:

  • Quem está coberto. Estabelecimentos, edificações e áreas de reunião de público com ocupação simultânea potencial de cem pessoas ou mais, incluindo instalações temporárias. Vale para menos gente em locais ocupados principalmente por crianças, idosos ou pessoas com dificuldade de locomoção, ou com material de alta inflamabilidade.
  • Quem analisa e fiscaliza. Cabe ao Corpo de Bombeiros Militar planejar, analisar, vistoriar, aprovar e fiscalizar, com advertência, multa, interdição e embargo. Os municípios incorporam essas normas ao planejamento urbano e ao licenciamento.
  • Como se aprova. O processo de aprovação na prefeitura deve seguir a legislação estadual, garantir acesso para o socorro, dar prioridade a materiais de baixa inflamabilidade e a sistemas automáticos de aspersão e considerar as exigências do laudo dos Bombeiros, o documento em que a corporação atesta as condições de segurança do local. O alvará depende da validade desse laudo, e o laudo pode exigir bombeiros civis e funcionários treinados.
  • Transparência. Alvará e capacidade máxima de pessoas devem ficar à vista do público.
  • Formação. Cursos de engenharia e arquitetura passam a ter conteúdo sobre prevenção de incêndio, e oficiais e praças dos Bombeiros precisam de curso específico na área.
  • Responsabilização. O prefeito que não garantir a observância das normas especiais em até dois anos incorre em improbidade administrativa.

A lei não traz tabela de lotação, largura de porta ou quantidade de extintor. Isso fica com as normas estaduais, e é nelas que o produtor precisa prestar atenção. Com 100 pessoas ou mais, ou com estrutura temporária, é muito provável que a conversa com os Bombeiros aconteça.

Depois, o código e as notas técnicas do seu estado

Cada estado tem seu corpo de bombeiros militar, com um código de segurança contra incêndio e pânico e uma coleção de notas técnicas. No Rio de Janeiro, a base é o Decreto Estadual 42/2018, o COSCIP (Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico), e as notas técnicas (NT) detalham como aplicar cada assunto. As que mais interessam a quem produz evento estão na série 5, voltada a eventos e reunião de público:

Nota técnicaAssuntoEm que ajuda
NT 1-01 (atualizada em 2025, Portaria 1317/2025)Procedimentos administrativosQuais documentos, projetos e taxas o processo pede e em que ordem
NT 5-01 (2019)Centros esportivos, de eventos e de exibiçãoGinásios, arenas e pavilhões, como espaços permanentes
NT 5-02 (3ª edição, 2025)Eventos pirotécnicosQueima de fogos e efeitos, com blaster habilitado, distâncias e proibições
NT 5-03 (2ª edição, 2025)Carros alegóricos, trios elétricos e carros de somCarnaval, desfiles e cortejos
NT 5-04 (1ª edição, 2019, atualizada em 2022)Eventos temporários de reunião de públicoPalco, tenda, arquibancada e festivais montados em locais abertos ou fechados
NT 5-05 (2019)Atendimento médico em eventos de reunião de públicoQuanta estrutura de saúde o evento precisa ter

As notas estão no site do CBMERJ e mudam de edição. Confira sempre a data da versão que você está lendo.

Como achar as normas do seu estado

Procure o site do Corpo de Bombeiros Militar do estado e busque por “notas técnicas”, “instruções técnicas” ou “código de segurança contra incêndio e pânico”. Veja se há norma específica para eventos temporários e reunião de público. Se não achar, ligue ou vá ao quartel mais próximo.

O que a NT 5-04 traz, em miúdos

A NT 5-04 é a que a maioria dos produtores abre primeiro. Foi pensada para eventos temporários de reunião de público que usam estruturas provisórias, em locais abertos ou fechados. Manifestações públicas sem estrutura temporária tendem a ficar fora do escopo, e vale confirmar o seu caso com a corporação. Pontos úteis da edição de 2019 (atualizada em 2022):

  • Porte do evento. Pequeno, até 2.000 pessoas. Médio, de 2.001 a 20.000. Grande, acima de 20.000. O porte muda prazos e exigências.
  • Prazos de protocolo. Dez dias úteis de antecedência para pequeno porte, quinze para médio e trinta para grande. Acima de 40.000 pessoas, recomenda-se reunião prévia com a diretoria responsável.
  • Projeto técnico. O processo exige projeto técnico, conforme a NT 1-01, com indicação das estruturas temporárias no terreno, e relatórios técnicos das estruturas provisórias.
  • Estruturas temporárias. Palcos, camarins, camarotes, tendas e torres de som e luz entram na análise. Materiais de decoração, lonas e mobiliário devem restringir a propagação do fogo, conforme a nota técnica de controle de materiais.
  • Lotação. O cálculo usa densidades de ocupação por tipo de área e considera público e força de trabalho.
  • Saídas. Há largura mínima, distâncias máximas até a saída e taxas de fluxo de pessoas por minuto por metro de largura, que mudam conforme o tipo de estrutura.
  • Brigada e socorro. Bombeiros civis dimensionados conforme a nota e vias de acesso para viaturas até a área de concentração do público.

As tabelas mudam e o cálculo é do responsável técnico. A lógica é o que importa: a nota trata o evento como projeto de engenharia, com cálculo, leiaute (o desenho de como tudo será montado no terreno) e documentação.

Fogos e efeitos: a NT 5-02

Quem prevê pirotecnia deve ler a NT 5-02 (3ª edição, 2025) antes de fechar o roteiro. A queima é conduzida por um blaster, o profissional que opera e responde pelos fogos e precisa ter habilitação legal. A nota trata de distâncias mínimas entre a queima e o público ou edificações, com distâncias maiores perto de locais de risco especial, como hospitais, e restringe a queima em locais como praias e unidades de conservação. Em ambientes fechados, a regra costuma ser bem restritiva. Verifique na edição vigente da nota o que é admitido, sempre com projeto e autorização. Na hierarquia de controles, o caminho mais seguro continua sendo eliminar o efeito em espaço fechado.

Saúde do público: a NT 5-05

A NT 5-05 (2019) vale para eventos com mil pessoas ou mais, e dimensiona a estrutura de atendimento (postos médicos, equipe, ambulâncias) conforme o público. A estrutura deve estar pronta e disponível pelo menos duas horas antes do início do evento, e um relatório operacional precisa ser enviado depois, em até 15 dias. A nota também lista situações que pedem reunião prévia com a corporação, como público acima de 40 mil pessoas, shows musicais com público jovem, venda de bebida alcoólica, duração acima de seis horas e período de carnaval.

Perguntas que todo mundo faz

E um evento numa praça pública, sem estrutura nenhuma? Pelo escopo da NT 5-04, manifestações públicas sem estrutura temporária ficam fora dela. Isso não significa que nada se aplica: o uso da praça costuma exigir autorização da prefeitura, e a lei federal alcança áreas de reunião de público com 100 pessoas ou mais, o que inclui instalações temporárias. Na dúvida, pergunte antes de divulgar.

Preciso de CNPJ para fazer o processo? A exigência pode variar conforme o estado e o tipo de evento. Pergunte ao Corpo de Bombeiros e à prefeitura quem pode figurar como responsável.

Um passo a passo para chegar ao aval

  1. Descubra qual é o seu caso. Espaço fechado permanente com laudo vigente? Estrutura temporária em área aberta? Pirotecnia? Público de mil pessoas ou mais? A resposta define quais notas consultar.
  2. Se o espaço é permanente, peça o laudo. Veja se está dentro da validade e qual é a capacidade aprovada. O evento não pode ultrapassar esse número, nem mudar o leiaute de forma que mexa nas saídas.
  3. Contrate responsável técnico cedo. Engenheiro ou arquiteto habilitado, com ART ou RRT (a Anotação ou o Registro de Responsabilidade Técnica, que registra quem responde pelo projeto), para o projeto, a análise das estruturas e o leiaute. Isso é item de orçamento, e não luxo.
  4. Monte o dossiê. Projeto, laudos das estruturas (documentos técnicos que atestam que o palco, a tenda ou a arquibancada aguentam o uso), comprovações de materiais, plano de emergência, dimensionamento de brigada e atendimento médico e comprovante das taxas.
  5. Protocole com folga. Os prazos acima são de antecedência mínima para protocolar, e não garantia de resposta a tempo. Se houver pendência, você precisa de tempo para corrigir.
  6. Prepare a equipe. O aval só vale se o dia do evento reproduzir o que foi aprovado: saídas livres, lotação respeitada, sinalização no lugar.
  7. Guarde tudo. Processo, laudo e relatório final servem para a prestação de contas e para a próxima edição.

Por que isso não é burocracia pela burocracia

Os padrões dos casos de boate, descritos em o que Kiss e Le Cinq-Sept ensinam sobre prevenção, são material sem laudo, saídas que não funcionavam, proteção ausente e licença sem engenharia. Muitas exigências das notas técnicas respondem a falhas desse tipo. Como opinião, a norma é, em boa parte, a memória coletiva do que já deu errado.

Há também ganho prático. Como opinião, um projeto bem feito tende a ser aprovado com menos pendências e a mostrar maturidade técnica a patrocinador e a comissão de edital. A conta aparece em como a segurança cabe no orçamento do edital.

Em resumo

A Lei 13.425 dá as diretrizes nacionais, e cada estado detalha nas suas normas. No Rio, a série 5 das notas técnicas trata de eventos, fogos e atendimento médico, e a NT 1-01 foi atualizada em 2025. No seu estado, procure a norma equivalente. Contrate o responsável técnico cedo, protocole com folga e confirme sempre a edição em vigor com a sua corporação.

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