Pergunte a um produtor quanto custou o último evento e ele responde um valor em reais. Pergunte quanto custou em sono, em humor, em fim de semana perdido e em gente que desistiu da área, e o provável é ouvir um silêncio. Esse segundo orçamento existe e tem nome na literatura: custo humano do trabalho.

Um conceito emprestado da ergonomia
Na ergonomia da atividade, estuda-se o que o trabalho exige de quem o executa para chegar ao resultado. Esse esforço costuma ser olhado em três dimensões, uma divisão que vem da ergonomia da atividade brasileira, de autores como Ferreira e Mendes: o físico (o corpo na tarefa), o cognitivo (a atenção, a decisão, a memória) e o afetivo (as emoções, a pressão, os conflitos). O conjunto é o custo humano do trabalho, abreviado como CHT.
A ideia é boa porque desloca a pergunta. Em vez de “por que essa pessoa não aguenta?”, a pergunta passa a ser “o que o jeito como esse trabalho está organizado exige dela?”. Esse deslocamento é essencial, porque, como lembra o administrador e gestor cultural Alexandre Barreto, a forma como o trabalho é organizado pesa muito no sofrimento de quem trabalha.
O que costuma dar errado com as pessoas
Entre os erros mais comuns no planejamento e na gestão de projetos conduzidos por produtores culturais, um dos mais frequentes está na gestão de pessoas. O quadro é conhecido de quem trabalha no meio:
- Seleção informal. Contratação por indicação e laços pessoais, às vezes sem avaliar o perfil necessário. O resultado é gente no cargo errado e uma equipe dividida entre quem faz parte do círculo e quem não faz.
- Planejamento de pessoas quase inexistente. Em geral, gerenciar significa distribuir tarefas, e não prever quantas pessoas, com que perfil, em que momento.
- Cargos de direção ocupados sem preparo. Direção de produção, produção executiva e coordenação, por vezes entregues a quem tem pouca experiência e está sob grande tensão.
- Condições de trabalho e clima ruins. Relatos de horas extras sem pagamento, pressão, falta de flexibilidade e até assédio moral, num ambiente em que o foco é só o resultado.
- Trabalho de emergência. Contratações de última hora e vida de freelancer que faz a pessoa aceitar qualquer condição por medo de não ser chamada de novo.
Barreto descreve ainda posturas de concorrência que atrapalham o ambiente coletivo: a concorrência predatória, a concorrência disfarçada e a negação de que existe competição. Esse tipo de postura mina a confiança de uma equipe que precisa trabalhar junta por semanas.
Liderar é trabalho, não só cargo
A direção de produção, o suporte a processos de trabalho e a coordenação de equipes exigem orientar o trabalho de várias pessoas, motivá-las e ajudá-las a dar o melhor de si. Barreto pergunta como alguém pode estimular uma equipe que nunca fez o menor movimento para conhecê-la, e como alguém pode dar o melhor de si quando o superior empurra o processo com a barriga e justifica com frases como “vamos afinando o processo”.
A frase “é um projeto novo” explica muita coisa, mas não pode servir de álibi permanente. Todo projeto é único, como diz a definição clássica da gestão de projetos, e é justamente por isso que ele pede planejamento.
O adoecimento tem endereço: a organização do trabalho
O mesmo Barreto lembra que estudos sobre o sofrimento do trabalhador apontam a forma de organizar o trabalho como um dos principais fatores. E vai além: sustenta que a organização caótica pode levar muita gente a doenças ocupacionais, como a depressão. Ele critica quem louva a desorganização como se fosse a graça dos novos tempos. Para quem faz cultura só pelo exercício dos próprios direitos culturais, isso pode até ser charmoso. Para quem tira o sustento da área, organização é questão de saúde.
A legislação brasileira de segurança do trabalho passou a incluir os fatores psicossociais, como sobrecarga e assédio, no gerenciamento de riscos das organizações. Os detalhes estão em ergonomia para quem faz o show.
Como calcular o custo humano no seu projeto
Não existe fórmula mágica, mas dá para criar um olhar de gestão com perguntas simples para cada função do projeto:
| Dimensão | Pergunta para a função | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Físico | Que esforço, que postura, que jornada? | Carga sem apoio, turnos longos, falta de descanso |
| Cognitivo | Quantas decisões e quantas informações por hora? | Mudanças de última hora, muitas frentes ao mesmo tempo |
| Afetivo | Que tipo de pressão, de relação, de reconhecimento? | Cobrança sem clareza, conflitos sem espaço de conversa, ausência de retorno |
Depois, use as respostas para tomar decisões: dividir uma função, contratar uma pessoa a mais, antecipar uma entrega, ajustar um horário, incluir uma pausa. Essa conversa precisa acontecer na hora de montar o cronograma e o orçamento, e não depois que alguém adoeceu.
Pessoas no orçamento: uma proposta que vale
Barreto faz um apelo ao Ministério da Cultura: que os orçamentos de projetos financiados por leis de incentivo e editais prevejam recursos para profissionais que cuidem da gestão de pessoas e das condições de trabalho, sobretudo quando o gestor não tem preparo para isso. Em outras palavras, tratar o cuidado com a equipe como entrega do projeto. Ele sugere ainda planejar o papel de cada pessoa, em vez de apenas “nomear funções e pensar num valor para uma planilha de orçamento”.
Em editais que permitem rubrica (a linha do orçamento destinada a um tipo de gasto) para coordenação, assistência de produção ou apoio técnico, vale distribuir bem esses recursos e explicar a lógica na justificativa. Para ir além, veja captar é difícil, e gestão ajuda.
Quando o cuidado vira resultado
Cuidar da equipe não é só gentileza, é estratégia. Como opinião, equipes descansadas tendem a errar menos, comunicar melhor, resolver problemas com mais calma e voltar para o próximo projeto. Esse princípio se chama sustentabilidade humana: o fazer artístico precisa ser viável sem comprometer a saúde física e mental de quem o realiza.
E você, no seu último projeto, quem pagou a conta que não estava na planilha? O que daria para mudar já no próximo cronograma?
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