Gestão de pessoas · 30/09/2026

O custo humano do trabalho cultural: quanto custa fazer o espetáculo acontecer?

Todo evento tem um orçamento em reais e outro invisível, medido em sono, saúde e vontade de continuar. Entenda o que é custo humano do trabalho e por que a gestão de pessoas é, muitas vezes, o maior gargalo da produção.

Pergunte a um produtor quanto custou o último evento e ele responde um valor em reais. Pergunte quanto custou em sono, em humor, em fim de semana perdido e em gente que desistiu da área, e o provável é ouvir um silêncio. Esse segundo orçamento existe e tem nome na literatura: custo humano do trabalho.

Descanso também faz parte da produção: quem não se recupera não rende no próximo evento, e o custo aparece depois.
Descanso também faz parte da produção: quem não se recupera não rende no próximo evento, e o custo aparece depois.

Um conceito emprestado da ergonomia

Na ergonomia da atividade, estuda-se o que o trabalho exige de quem o executa para chegar ao resultado. Esse esforço costuma ser olhado em três dimensões, uma divisão que vem da ergonomia da atividade brasileira, de autores como Ferreira e Mendes: o físico (o corpo na tarefa), o cognitivo (a atenção, a decisão, a memória) e o afetivo (as emoções, a pressão, os conflitos). O conjunto é o custo humano do trabalho, abreviado como CHT.

A ideia é boa porque desloca a pergunta. Em vez de “por que essa pessoa não aguenta?”, a pergunta passa a ser “o que o jeito como esse trabalho está organizado exige dela?”. Esse deslocamento é essencial, porque, como lembra o administrador e gestor cultural Alexandre Barreto, a forma como o trabalho é organizado pesa muito no sofrimento de quem trabalha.

O que costuma dar errado com as pessoas

Entre os erros mais comuns no planejamento e na gestão de projetos conduzidos por produtores culturais, um dos mais frequentes está na gestão de pessoas. O quadro é conhecido de quem trabalha no meio:

  • Seleção informal. Contratação por indicação e laços pessoais, às vezes sem avaliar o perfil necessário. O resultado é gente no cargo errado e uma equipe dividida entre quem faz parte do círculo e quem não faz.
  • Planejamento de pessoas quase inexistente. Em geral, gerenciar significa distribuir tarefas, e não prever quantas pessoas, com que perfil, em que momento.
  • Cargos de direção ocupados sem preparo. Direção de produção, produção executiva e coordenação, por vezes entregues a quem tem pouca experiência e está sob grande tensão.
  • Condições de trabalho e clima ruins. Relatos de horas extras sem pagamento, pressão, falta de flexibilidade e até assédio moral, num ambiente em que o foco é só o resultado.
  • Trabalho de emergência. Contratações de última hora e vida de freelancer que faz a pessoa aceitar qualquer condição por medo de não ser chamada de novo.

Barreto descreve ainda posturas de concorrência que atrapalham o ambiente coletivo: a concorrência predatória, a concorrência disfarçada e a negação de que existe competição. Esse tipo de postura mina a confiança de uma equipe que precisa trabalhar junta por semanas.

Liderar é trabalho, não só cargo

A direção de produção, o suporte a processos de trabalho e a coordenação de equipes exigem orientar o trabalho de várias pessoas, motivá-las e ajudá-las a dar o melhor de si. Barreto pergunta como alguém pode estimular uma equipe que nunca fez o menor movimento para conhecê-la, e como alguém pode dar o melhor de si quando o superior empurra o processo com a barriga e justifica com frases como “vamos afinando o processo”.

A frase “é um projeto novo” explica muita coisa, mas não pode servir de álibi permanente. Todo projeto é único, como diz a definição clássica da gestão de projetos, e é justamente por isso que ele pede planejamento.

O adoecimento tem endereço: a organização do trabalho

O mesmo Barreto lembra que estudos sobre o sofrimento do trabalhador apontam a forma de organizar o trabalho como um dos principais fatores. E vai além: sustenta que a organização caótica pode levar muita gente a doenças ocupacionais, como a depressão. Ele critica quem louva a desorganização como se fosse a graça dos novos tempos. Para quem faz cultura só pelo exercício dos próprios direitos culturais, isso pode até ser charmoso. Para quem tira o sustento da área, organização é questão de saúde.

A legislação brasileira de segurança do trabalho passou a incluir os fatores psicossociais, como sobrecarga e assédio, no gerenciamento de riscos das organizações. Os detalhes estão em ergonomia para quem faz o show.

Como calcular o custo humano no seu projeto

Não existe fórmula mágica, mas dá para criar um olhar de gestão com perguntas simples para cada função do projeto:

DimensãoPergunta para a funçãoSinal de alerta
FísicoQue esforço, que postura, que jornada?Carga sem apoio, turnos longos, falta de descanso
CognitivoQuantas decisões e quantas informações por hora?Mudanças de última hora, muitas frentes ao mesmo tempo
AfetivoQue tipo de pressão, de relação, de reconhecimento?Cobrança sem clareza, conflitos sem espaço de conversa, ausência de retorno

Depois, use as respostas para tomar decisões: dividir uma função, contratar uma pessoa a mais, antecipar uma entrega, ajustar um horário, incluir uma pausa. Essa conversa precisa acontecer na hora de montar o cronograma e o orçamento, e não depois que alguém adoeceu.

Pessoas no orçamento: uma proposta que vale

Barreto faz um apelo ao Ministério da Cultura: que os orçamentos de projetos financiados por leis de incentivo e editais prevejam recursos para profissionais que cuidem da gestão de pessoas e das condições de trabalho, sobretudo quando o gestor não tem preparo para isso. Em outras palavras, tratar o cuidado com a equipe como entrega do projeto. Ele sugere ainda planejar o papel de cada pessoa, em vez de apenas “nomear funções e pensar num valor para uma planilha de orçamento”.

Em editais que permitem rubrica (a linha do orçamento destinada a um tipo de gasto) para coordenação, assistência de produção ou apoio técnico, vale distribuir bem esses recursos e explicar a lógica na justificativa. Para ir além, veja captar é difícil, e gestão ajuda.

Quando o cuidado vira resultado

Cuidar da equipe não é só gentileza, é estratégia. Como opinião, equipes descansadas tendem a errar menos, comunicar melhor, resolver problemas com mais calma e voltar para o próximo projeto. Esse princípio se chama sustentabilidade humana: o fazer artístico precisa ser viável sem comprometer a saúde física e mental de quem o realiza.

E você, no seu último projeto, quem pagou a conta que não estava na planilha? O que daria para mudar já no próximo cronograma?

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