Todo produtor cultural conhece a sensação: o projeto é bom, a equipe é boa, o público existe, e o dinheiro não vem. Ou vem, mas curto, tarde ou cheio de regras que parecem feitas para quem nunca produziu um evento. É tentador pensar que o problema é só falta de verba. Falta de verba existe, claro. Mas também há problemas de gestão, e esses estão ao alcance de quem produz.

Seis problemas comuns do setor
Girardi, Gonçalves e Girardi (2012), a partir de uma apresentação de Geber Ramalho sobre economia criativa, apontam seis problemas comuns na gestão da produção cultural. A lista é deles, aqui em outras palavras:
- Fraca gestão empresarial dos processos e produtos culturais.
- Forte resistência cultural a uma atuação industrial do setor criativo.
- Formação insuficiente de especialistas nas diversas áreas da cadeia produtiva.
- Acesso limitado a mercados com concorrentes fortes, atuação subsidiada e pouca inovação.
- Pouca articulação dentro do setor, entre setores e com a tecnologia.
- Baixa percepção, nas políticas públicas, da importância econômica da produção cultural.
Soma-se a isso, segundo a literatura da área, que faltam legislações trabalhistas específicas para o setor e que grande parte dos profissionais atua na informalidade. A dimensão simbólica (o valor cultural das obras) e a cidadã avançaram, mas a dimensão econômica carece de políticas públicas.
O projeto que vira formulário
Thiry-Cherques é duro com um vício muito comum: partir direto para o preenchimento do formulário sem a ideia clara e trabalhada, ou montar o projeto a partir da fonte de financiamento disponível. Ele aponta ainda três problemas comuns na definição dos objetivos:
- Objetivos difusos. Muitos alvos ao mesmo tempo forçam a dispersão de recursos e empobrecem o projeto.
- Objetivos encadeados. Do tipo “conhecido o público-alvo, passaremos a...”. O primeiro trecho é um objetivo, o segundo é um propósito que depende do primeiro. Dá para planejar um projeto sobre o primeiro, mas não sobre o segundo, enquanto o resultado do primeiro não for conhecido.
- Intenção sem projeto. Frases bem-intencionadas sobre “evidenciar o caráter simbólico e cultural”, que não definem entrega, custo, prazo e qualidade.
Gente: onde muitos projetos tropeçam
Um dos erros mais comuns no planejamento de projetos culturais está na gestão de pessoas. O administrador e gestor cultural Alexandre Barreto observa que cargos de direção de produção, produção executiva e coordenação são, algumas vezes, ocupados por pessoas sem preparo e submetidas a grandes tensões. Ele sugere que se pense o papel de cada pessoa no projeto, em vez de apenas nomear funções e reservar um valor na planilha, e pede que os orçamentos prevejam profissionais que cuidem dessa área. Mais sobre isso em custo humano do trabalho cultural.
O orçamento sem segurança
Um problema de dinheiro e de gestão ao mesmo tempo: o financiamento raramente prevê rubricas (as linhas de despesa da planilha) para prevenir riscos. Esse assunto tem texto próprio, com exemplo de orçamento, em segurança no orçamento do edital.
Opinião: onde a gestão faz diferença, etapa por etapa
A tabela abaixo é opinião. Cruza as dificuldades descritas acima com práticas básicas de gestão de projetos.
| Etapa | Dificuldade comum | O que a gestão muda |
|---|---|---|
| Concepção | Projeto escrito para caber na fonte | Objetivo claro, produto definido, resultado que dá para medir |
| Orçamento | Planilha sem segurança, sem equipe técnica e sem reserva | Rubricas para responsável técnico, laudos, brigada e reserva para imprevistos |
| Submissão | Documentação incompleta e justificativa vaga | Cronograma, EAP (a divisão do projeto em entregas), plano de riscos e comunicação em anexo |
| Execução | Mudanças sem registro e relação ruim com a equipe | Controle de mudanças, comunicação planejada e escala de trabalho respeitosa |
| Encerramento | Prestação de contas feita às pressas | Documentação organizada desde o primeiro dia |
| Depois | O aprendizado se perde | Lições aprendidas e relatório para o próximo ciclo |
Cronograma, plano de riscos e controle de mudanças ganham forma na prática em PMBOK na produção cultural e em PMBOK e EMBOK juntos. Já a comissão de seleção percebe esses sinais ao ler o projeto, como mostra como a comissão avalia um projeto.
A parte que não depende só de quem produz
Seria injusto fingir que tudo se resolve com planilha. Como opinião, o setor precisa de mecanismos que vão além de editais e leis de incentivo: apoio a incubadoras (programas que ajudam novos empreendimentos a se estruturar), formação específica, marcos legais para a produção cultural e a atualização dos instrumentos existentes. Não se trata de extinguir os instrumentos existentes, e sim de reduzir o abismo entre o profissional e as exigências.
Como opinião, enquanto isso não muda, o que está ao alcance é entender as regras, escrever bem, orçar com realismo e executar com método. A gestão não garante o dinheiro, mas deixa o projeto mais fácil de financiar, de executar e de prestar contas.
Cinco ações para esta semana
- Releia o seu último projeto e responda: qual é o objetivo em uma frase e como saberei que foi atingido?
- Inclua no próximo orçamento uma linha para responsável técnico e outra para segurança e atendimento médico.
- Faça uma lista dos riscos que você já viveu e veja quais estão previstos no próximo plano.
- Escreva a escala da equipe, com intervalos, antes de fechar o cronograma.
- Crie uma pasta com os documentos do projeto desde o dia um, pensando na prestação de contas.
ProduPlay · Produção cultural com método e linguagem clara.