Gestão cultural · 30/09/2026

Afinal, o que faz um produtor cultural? Profissão popularizada nos anos 80 e oficializada nos 90

Produtor cultural é quem faz a ação cultural acontecer. A profissão foi popularizada nos anos 80, oficializada nos anos 90, e hoje se organiza em três fases de trabalho. Veja também um dia de produção, num exemplo fictício.

Se você já foi a um show, a uma peça ou a uma feira cultural e se perguntou quem organizou tudo aquilo, a resposta provavelmente é: uma equipe de produção. E no meio dela, alguém que costuma ser chamado de produtor cultural. A profissão é antiga na prática e jovem no reconhecimento, e ainda confunde muita gente.

Produção em ação: reunião, rádio na mão e prancheta. É em dias assim que pré-produção, produção e pós-produção se encontram.
Produção em ação: reunião, rádio na mão e prancheta. É em dias assim que pré-produção, produção e pós-produção se encontram.

Uma definição simples

O administrador e gestor cultural Alexandre Barreto define produção cultural como a atividade que se ocupa de “fazer acontecer” a ação cultural. Ou seja, dar suporte organizacional ao exercício das manifestações artísticas e dos eventos culturais, o que envolve planejar, organizar, dirigir, coordenar e controlar tudo que faz parte deles. Em termos práticos, o produtor responde a perguntas como: onde, quando, com que dinheiro, com quem, com que estrutura e para quem?

Quem faz o quê na cultura

Rubim, partindo de ideias do pensador italiano Antonio Gramsci, descreve três movimentos de um sistema cultural: a criação, a transmissão ou divulgação e a organização. E três tipos de pessoas correspondem a eles: as que criam (artistas, cientistas), as que transmitem e difundem (educadores, profissionais de comunicação) e as que organizam a cultura (gestores e produtores).

Durante muito tempo, essas funções se misturavam. Os criadores faziam também a divulgação e a produção. Com o crescimento do mercado e das políticas de incentivo, as funções se especializaram, e aquilo que antes era feito de forma amadora passou a pedir profissionais. Rubim lembra que a organização da cultura não é necessária só para grandes eventos. Pequenas manifestações também exigem organização.

Uma profissão popularizada nos anos 80 e oficializada nos 90

A história das políticas culturais no Brasil explica por que o produtor cultural aparece tanto nas últimas décadas. Segundo autores como Costa, Rubim e Albuquerque Júnior, o caminho foi este:

  • 1934 a 1945. Primeira intervenção sistemática do Estado na cultura, na gestão de Gustavo Capanema no Ministério da Educação. Nessa época surge o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com a colaboração de Mário de Andrade.
  • 1945 a 1964. Período descrito como de ausência de políticas culturais, mas de muita efervescência fora do Estado: Teatro de Arena, Teatro Oficina, Centros Populares de Cultura, Cinema Novo, MASP e bienais.
  • 1969 a 1974 e 1975. O Plano de Ação Cultural (PAC), que tratava de capacitação de pessoal e de financiar eventos por calendário, e a primeira Política Nacional de Cultura.
  • 1985 e 1986. Criação do Ministério da Cultura, em 1985, no governo Sarney. A primeira lei de incentivos fiscais do país, a Lei Sarney (Lei 7.505/1986), permitia que produtores cadastrados recebessem verbas de patrocinadores que abatiam parte do valor no Imposto de Renda.
  • 1991 e 1995. A Lei Rouanet (8.313/91), principal lei federal de incentivo à cultura, substitui a Lei Sarney, e o decreto de 1995 que a regulamenta oficializa a atividade de intermediação de projetos culturais, incluindo a figura do produtor cultural.
  • Segunda metade dos anos 1990. Nascem os primeiros cursos de graduação em produção cultural, na Universidade Federal Fluminense e na Universidade Federal da Bahia, quase ao mesmo tempo.

Foi a partir dos anos 80 que o termo “produção cultural” se popularizou, em parte porque as leis de incentivo aumentaram a oferta de espetáculos, festivais e filmes financiados. Rubim lembra ainda que, em 2004, uma novela de grande audiência mostrou a rivalidade entre duas produtoras culturais, sinal de como a profissão ainda era pouco conhecida do grande público.

Uma linha do tempo mais detalhada dos mecanismos de financiamento, com as leis de incentivo e o que veio depois, está em de onde vem o dinheiro da cultura.

As três fases de qualquer produção

Segundo Girardi e coautores, a expressão “produção cultural” parece ter nascido da necessidade de dividir uma atividade artística ou cultural em etapas definidas. Na prática, o trabalho se organiza em três fases:

  1. Pré-produção. É onde o projeto nasce no papel: ideia, pesquisa, viabilidade, orçamento, captação, equipe, cronograma, licenças, contratos. Quanto melhor essa fase, menos surpresa depois.
  2. Produção. A execução. Montagem, ensaios, operação, atendimento ao público, com a produção executiva (quem responde pelo andamento geral e pelo dinheiro) acompanhando tudo e corrigindo rumos.
  3. Pós-produção. O encerramento. Desmontagem, pagamentos, registros, avaliação, prestação de contas e aprendizados para o próximo projeto.

Essas três fases têm paralelo com os grupos de processos da gestão de projetos: iniciação e planejamento na pré-produção, execução e controle na produção, encerramento na pós-produção. O paralelo está desenvolvido em PMBOK na produção cultural.

Um dia de trabalho

Exemplo fictício, inventado só para ilustrar: imagine a produtora Marina, no dia de um sarau de bairro com cinquenta pessoas na plateia.

  • Manhã. Confere o espaço com o técnico de som, testa as tomadas e confirma o horário de chegada dos artistas.
  • Início da tarde. Reúne a equipe para repassar o roteiro. Esse documento de combinados, o roteiro do dia, diz quem faz o quê, a que horas e quem decide em caso de imprevisto.
  • Meio da tarde. A caixa de som chega com defeito. Marina aciona o plano B que deixou combinado com o fornecedor e avisa o artista do novo horário de passagem de som.
  • Noite. Recebe o público, acompanha a apresentação e cuida para que a saída seja tranquila.
  • Dia seguinte. Organiza as fotos, os recibos e a lista de presença, que vão servir de prestação de contas para quem apoiou o evento.

Num dia assim, as três fases aparecem juntas. O que Marina combinou na pré-produção é o que a salvou na produção, e o que ela registra na pós-produção é o que vai tornar o próximo sarau mais fácil.

O produtor também é criador

Existe uma ideia de que o produtor é só “quem resolve” e fica atrás do palco. Há uma visão mais rica. Em muitas leituras, o produtor cultural equivale a um criador na área cultural, quase um artista e intelectual, e a produção seria inerente ao mundo simbólico, à criatividade e à sensibilidade. Outra autora, Rodrigues (2011), compara o trabalho do produtor ao de uma modelagem: ele toma a matéria cultural, aquela que aparece na festa, no canto, na dança, na comida, e lhe confere novos sentidos e novas materialidades.

Em síntese, o produtor cultural é um realizador ético e estético que atua na dimensão simbólica, facilitando o acesso das pessoas a bens e serviços culturais. E isso é parte do direito de cidadania.

O que muda quando a produção é profissional

Ser profissional não é ter escritório. É dominar as ferramentas que reduzem surpresa: planejar escopo, prazo, custo e risco, comunicar bem com todos os envolvidos e registrar o que foi feito. Para começar, a leitura indicada é gestão de projetos, gestão cultural e projetos culturais: qual é qual.

E você, que parte desse trabalho já faz no seu projeto sem chamar pelo nome? Se tivesse de contar o seu dia como o de Marina, onde estaria o maior imprevisto?

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