Engenharia do entretenimento · 30/09/2026

Entretenimento é cultura? Adorno, Benjamin e a briga mais antiga do setor

Diversão é coisa menor ou é parte da cultura? De Dionísio à Escola de Frankfurt e a Hermano Vianna, o que está em jogo quando alguém diz que algo é só entretenimento.

Quem trabalha com cultura já ouviu a frase carregada de desprezo: “ah, isso é só entretenimento”. E já ouviu a do outro lado: “arte que ninguém entende não enche plateia”. Entre as duas mora uma discussão antiga. Ela importa para quem produz porque muda o jeito de planejar, de comunicar e até de pedir patrocínio.

Cortinas abertas: a cultura e o espetáculo dependem de quem organiza o que o público vê.
Cortinas abertas: a cultura e o espetáculo dependem de quem organiza o que o público vê.

Dionísio e a festa

Gustavo Lorena Pinto, pesquisador do tema, lembra que a busca por lazer e diversão é antiga como a humanidade. Ele vai à mitologia grega: Dionísio, filho de Zeus com uma princesa mortal, era o deus do vinho, do êxtase e da festa, e um dos preferidos dos mortais. Simbolizava a ligação entre o céu e a terra.

Na leitura dele, o entretenimento se parece com esse deus. É efêmero, às vezes vazio de conteúdo, finito no tempo, mas com presença forte e necessária, algo em que as pessoas se apoiam para aliviar os desgastes da vida. Para ele, entretenimento é tudo aquilo que busca agradar, divertir e iludir. Essa última palavra já carrega uma desconfiança.

A desconfiança da Escola de Frankfurt

Em meados do século 20, dois filósofos alemães da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno e Max Horkheimer, criaram o termo indústria cultural. A tese era dura: a arte estava virando mercadoria, sujeita às leis de oferta e procura, produzida em série e feita para ser consumida sem esforço. O espectador não precisa pensar nem participar, só aceitar.

Para a dupla, a indústria cultural não trabalha com cultura no sentido exigente da palavra alemã Kultur, ligada ao espírito e à reflexão. Trabalha com entretenimento. E cultura, para eles, é questionamento e reflexão, não só aceitação. Segundo comentadores, parte dessas ideias dialoga com a propaganda nazista, em que toda a produção de arte servia a um único sistema, e com a leitura do cinema de massa norte-americano, que, para Adorno, desviava o olhar do público dos problemas sociais.

Walter Benjamin e outro olhar sobre a reprodução

Outro alemão, Walter Benjamin, olhou um cenário parecido e viu mais nuances. Para ele, a reprodutibilidade técnica da arte inseriu a cultura no desenvolvimento capitalista, com suas contradições, e a arte virou produto de consumo. Mas ele também via que reproduzir as obras abria caminho para a democratização e a difusão cultural, o que complica a ideia de que a reprodução em massa só empobrece a arte.

O caminho, para ele, é uma politização da estética que contrarie a estetização da política. Em linguagem de produtor: usar a reprodução e o alcance como instrumento de reflexão e participação, e não só de consumo.

E o antropólogo disse: acabem com essa hierarquia

No Brasil, o antropólogo Hermano Vianna afirma que não há diferença entre cultura e entretenimento. Entretenimento é cultura, e cultura da boa, e a hierarquia entre os dois está ultrapassada. Quem já viu uma roda de samba, uma festa junina de bairro ou um baile funk lotado sabe que é difícil separar com régua o que é diversão do que é expressão de identidade.

O pesquisador Luiz Gonzaga Trigo mostra por que cada grupo olha de um jeito. Para quem planeja turismo e negócios, o entretenimento é um setor em crescimento, impulsionado por tecnologia. Para sociólogos críticos do capitalismo, é alienação que gera lucro. Para as pessoas comuns, é possibilidade de escape, de diversão e de emoção. Como opinião, os três têm um pedaço de razão.

Onde entra o produtor cultural

Há um detalhe interessante. Embora a produção cultural esteja ligada à indústria do entretenimento, o olhar de quem produz muitas vezes separa entretenimento de alienação, promovendo crítica e transformação no indivíduo, no território e na sociedade. Ou seja, depende de como se faz. Uma mesma sala lotada pode ser só consumo ou pode ser encontro, reflexão e pertencimento.

Na prática, isso tem efeito direto no projeto:

  • Na programação. Misturar atrações de fruição imediata com outras que provocam e pedem conversa depois.
  • Na comunicação. Não tratar a diversão como inimiga do sentido. Dá para ser acolhedor sem ser raso.
  • Na captação. Quem patrocina costuma querer público e alcance. Quem apoia por política pública costuma querer impacto cultural. Saber falar as duas línguas abre portas.
  • Na mediação. Roda de conversa, material educativo e bate-papo com artistas são pontes entre o entretenimento e a reflexão.

Adorno desconfiou do consumo sem reflexão, Benjamin viu na reprodução uma chance de democratizar, e Vianna sugeriu abandonar a hierarquia. A pergunta que sobra para quem produz é mais prática do que parece: pensando no último evento que você fez, o que ele provocou nas pessoas depois que as luzes acenderam?

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